sábado, 2 de abril de 2011

Sobre opostos e iguais, parte II.

Março, 01. 1985.
“É impossível, a meu ver, conceber a ideia de manter um diário como sábia — e não há um argumento sólido o bastante que me convença do contrário. Mas, no momento, é a única tarefa em que imponho a maior devoção. As estrelas me condenam por tal ousadia, e eu rio por seu espanto. Veja, não é pela frivolidade de expor meus pensamentos; é por transcrever o que existe de mais abjeto na mente de um assassino. Em tais mal traçadas linhas encontram-se os pecados que camuflo com minha boa aparência, educação e estirpe. Que Deus perdoe os meus pecados — ou uma pequena parcela deles.”
Movida pelo asco (e um pouco de orgulho, talvez), Amélia desvencilhou-se do toque do outro. Ele, divertindo-se com a situação, não demonstrou desagrado pela recusa. Pelo contrário, aumentava a sua necessidade de soar gentil. — Você fuma, não? É um hábito ruim para moças de sua idade. — Pôde jurar que um sorriso brotara naqueles lábios famintos. — Aceita? — Os cigarros eram uma tentação gigantesca para uma viciada como ela o era. Tomou um pelos dedos trêmulos e ossudos e levou-o a boca para que seu anfitrião (de qual outra forma deveria chamá-lo?) o acendesse. Uma tragada foi o bastante para esquecer a dor.
Por alguns segundos, é claro.
Março, 02. 1985.
“O que sou hoje é o resultado de uma experiência (a mais fantástica que tenho em memória) em Colchester, onde nasci. Não tinha mais do que onze anos. Lembro-me que havia corrido por inúmeras ruas, sem rumo, até ser tomado pela exaustão e forçado a descansar. Foi quando a ouvi. Uma voz sofrida, rouca, quase que uma obra de minha imaginação. Há alguns passos, em um poço de água lamacenta, estava minha tão amada precursora. A maldita estava se afogando, compreende? Deus sabe o quanto ela ansiava por ajuda, e o quão feliz fiquei por negá-la. Ela golpeou as paredes que a rodeavam, implorou por socorro, tentou imergir por tempo suficiente para tomar fôlego, e, enfim, desistiu. Eu fui o último a ver a esperança em seus olhos; o último a captar a sombra da mulher que ela fora em suas íris aflitas. E é esta sensação exclusiva que a rendição é capaz de causar em quem a contempla que busco em todas que matei.”
— Por que ele a matou? Refiro-me ao seu livro, querida. Por que, no fim, Drystan matou a tão enfadonha April? Não que ela merecesse outro destino, mas foi uma incoerência de sua parte.
Sua crítica foi bem encarada pela antiga escritora, e a resposta seguiu-se a um momento de silêncio. — Ele a amava mais do que a si mesmo. Alguém com sua personalidade não suportaria uma paixão com dimensões tão colossais.
E assim, de repente (sim, de repente; não houve tempo para esclarecimentos ou para estabelecer uma ordem de pensamento que condissesse com a realidade), o anjo caído retirou uma arma do cós da calça.
— Eu queria lhe dizer, amor-ame-Amélia, que, quando adentrei por aquela porta, o nosso destino estava selado: apenas um de nós sobreviveria esta noite.
Outubro, 17. 1989.
“A ausência de relatos deve-se a estranha atenção que tenho depositado em minha mais nova hóspede. Bela criatura, aquela — não que eu utilize tal critério para escolher minhas vítimas. Seleciono-as pela solidão. Sinto-me, então, na obrigação de elucidar o que considero uma pessoa só. Não é o indesejável, o abandonado, o esquecido; são os brilhantes, os seres mais excepcionais que, por escolha própria, não alheia, anseiam pela magnitude de tal condição. Com Amélia, em específico, encontrei (para seu azar, suponho) mais um fator que me levou a um desconhecido frenesi. Refiro-me ao tom de seus cabelos. Tão vermelhos que me dão a impressão de que foram banhados em sangue quando a pequena veio ao mundo. Doentio, eu sei, e faz parte da minha insanidade.”
Novembro, 03, 1989.
“Onde está sua rendição, Amélia? Não é característico dos solitários resistirem por tanto tempo. E é tão trágico saber que é o fim.”
Um disparo na cabeça. Um grito. Um corpo caído e paredes ensanguentadas. Um homem e seus ideais estavam mortos. Para sempre.
Amélia, por horas, manteve-se na mesma posição, esperando qualquer sinal de vida que ele pudesse lhe dar. Mas não houve. Ele tinha partido, e a única prova de quem aquele suicida foi era o diário forrado em couro que a jovem encontrara ao partir.
Passaram-se dias, meses, e era visível a todos que aquela mulher de cabelos de fogo jamais voltaria a ser quem era antes. Algo a havia modificado no mais fundo de sua alma, onde nenhuma observação, por mais minuciosa e atenta que fosse, poderia atingir. Não eram as músicas clássicas que passou a admirar, ou os perfumes caríssimos.
Foi o olhar. A rendição e desistência que encontrara no vazio dos orbes dele.
Ela ansiava pela próxima vez que sentiria o gosto amargo da morte na ponta da língua.

Nota: Não consegui nomear o assassino. Acho que a ideia de que ele poderia ser qualquer um é-me muito atrativa para que eu a descarte.

domingo, 28 de novembro de 2010

Sobre opostos e iguais, parte I.

Tinha perdido a conta de quantos dias passara ali. Duas ou três semanas? Mais de um mês, provavelmente. O estranho era que não se preocupava se alguém estava à sua procura, mas se questionava se sentiam sua falta, quem quer que fosse. Pela primeira vez na vida, tentava ser otimista. Um pouco tarde demais, eu diria.

O pequeno cômodo em que estava era mal-iluminado e de paredes pichadas, com rachaduras por toda sua extensão. (De alguma forma, estava convicta que outras estiveram em seu lugar.) Os trapos que vestia cheiravam a mofo, suor e vômito. E havia o sangue, claro; na ponta dos dedos, no lábio inferior ferido, nos joelhos e palmas das mãos raladas.

Amélia era a filha do meio de um casal de professores universitários. Nem a mais bela, nem a mais inteligente: a mais solitária, sim, mas quando tal característica foi o bastante? Cresceu sem vivenciar emoções, teve três namorados, desistiu do casamento com o último. Era fumante e alcoólatra, embora soubesse esconder seus vícios com talento. Lecionou por algum tempo, até perceber que não, não era seu sonho. Publicou Os Rasgos da Loucura, seu primeiro livro. Vendeu alguns exemplares, nada de excepcional. E como se toda a frustração de sua vida fosse pouco a ser suportado, Amélia fora conduzida por um rapaz de roupas caras e belos olhos verdes — como esmeraldas incrustadas na tez alva — até aquele pequeno cárcere, sendo ferida e pouco alimentada. O motivo? Ela não saberia dizer.

O desconhecido, ela supôs, devia provir de uma família abastada. Se aguçasse a audição, conseguia ouvir trechos de músicas que o rapaz parecia gostar. Bach, Chopin, Debussy. Seus sapatos eram bem engraxados, costumava usar camisas de linho e cheirava à mistura de cigarros mentolados com um perfume caro. Eles não se falaram muitas vezes, no entanto. No primeiro dia, ela gritara até a garganta doer e ficar seca. Implorando por socorro, socou as portas. “Por quê? Por que, meu Deus, por quê?” A resposta não veio, e ela, por fim, se conformou com os maus tratos.

Quando ouviu o barulho de passos do lado de fora, arrastou-se pelo chão, recuando. A maçaneta girou e a ruiva gemeu, trêmula dos pés a cabeça. Ele (não sabia seu nome) entrou pela fresta da porta aberta, e deu à vítima um sorriso de escárnio. Aproximava-se como um predador se espreita até a presa, num silêncio tão absoluto que feria os tímpanos. — Veja — Ele estendeu a bandeja prateada na direção dela, agachando-se para que seus rostos ficassem a mesma altura. —, para uma noite especial, minha bela.

Havia um copo com água limpa, uma taça de vinho e um prato com batatas coradas e carne assada. Seu estômago esfomeado pareceu protestar para que ela atacasse a comida, sem pestanejar, mas Amélia compreendera as entrelinhas daquela última sentença. “Uma noite especial”, repetiu em pensamento.

— Não tenha medo. — Erguendo as íris para encará-lo, foi surpreendida quando o polegar do outro lhe tocou a boca seca. — Daqui a alguns instantes, tudo estará terminado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

I don’t know what I can save you from.

Estava a sete passos da cama. Defronte à penteadeira, observava-o (através de seu reflexo no espelho) envolto pelos lençóis recém-usados. Inconsciente da observação minuciosa da amante, ele fumava e mantinha os orbes presos à janela entreaberta. A expressão muito marcada de frustração, de ausência, de sede por entendimento.
Havia silêncio demais entre aquelas paredes e ele era fraco para suportá-lo.

— Eu queria que você ficasse. — Sua voz era rouca, como quem está dando o melhor de si para conter um soluço. — Queria que você quisesse ficar.
— E eu quero.
— Sei que está cansada. Você sempre se cansa.
— Como?
— Você tem necessidade de ser livre; uma necessidade que é proporcional a que eu tenho de ficar preso a você.

Ela não respondeu. Virou-se e apanhou, uma a uma, as peças de roupa no chão. Elas cheiravam ao whisky que ambos tomaram na noite passada, antes de uma transa sem emoção. É claro que poderia sentar na cama e beijá-lo, sentir o gosto de sua saliva uma vez mais antes de partir, mas era preciso quebrar aquilo em mil pedaços. Sufocar na memória qualquer coisa bonita que tiveram. (Seria mais fácil de te esquecer, meu bem. Entenda.)
— ...Por favor. Não. Não, Julia, não.

Seu soluço somou-se ao barulho da porta sendo fechada.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Gone.

Sinto falta de como sua voz soa aos meus ouvidos. Do abraço, dos olhos que me fazem despencar de um precipício que só eu vejo. Sinto falta das promessas vazias, do sorriso, do chá às cinco, da sua fragrância na ponta de meus dedos. (Do seu reflexo no espelho, dos passos tão estrategicamente calculados, de sua partida.)
Sinto falta das minhas lágrimas mornas no travesseiro, dos meus soluços rebatendo (rebatendo e rebatendo) nas paredes desgastadas pelo tempo. Principalmente, sinto falta do que não ocorreu. Das lacunas que tentei preencher com tardes e mãos dadas que não existiram, das declarações que eu tanto desejei, mas que nunca escaparam de seus lábios. (Nunca, nunca, nunca.)
Mas essas confissões só são dignas destas folhas amareladas na qual escrevo, e dessa tinta — quase acabada — da caneta que encontrei embaixo da escrivaninha. É sua.
Talvez a guarde como recordação do seu toque, ou a arremesse pela janela em nome da dor.
Pois já é madrugada e você não está aqui.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Você vê essas cicatrizes, querido? Foram feitas por você.

A cada tique do relógio, eu tenho vislumbres vivos de personagens estampados no escuro interno de minha pálpebra. Eu arranco suas angústias e retrato-as com palavras — que me soam extraordinariamente imprecisas — para que, já tão livres do peso que havia em seus ombros, eles partam.
Mas há uma que sempre insiste em me perseguir. Ela me mostra um coração partido em pedaços tão mínimos que jamais conseguiriam repará-lo.
Abaixo, a confissão de quem amou com ardor.
Eu lembro. Lembro-me de você ter feito aquelas promessas tão rasas que acabou por desfazê-las. De ter impregnado meus lençóis com sua fragrância. De ter marcado minha pele com as notas de suas canções para que, no futuro, eu as olhasse e recordasse da sua melodia. Lembro-me, por mais amargo que seja, de vê-lo atando meu pulso com correntes invisíveis (que me diriam que eu seria sempre sua).
E apesar do tempo, ainda tenho o gosto de sua saliva na minha. Ainda sinto seus dentes cravados em minha boca, roubando os resquícios da sanidade que eu possuía. Ainda tenho seu reflexo no espelho, e fios do seu cabelo no travesseiro. Ainda tenho o porta-retratos quebrado no assoalho e as pílulas nos frascos, esperando que você retorne. Não apenas para meus braços — já tão débeis pela sua ausência —, mas para reparar esse pedaço oco e fodido que eu me tornei. Essa ferida que não cura. Porque mesmo com os anos terem se arrastado e a primavera nunca mais ter vindo ao meu encontro, eu lembro.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

The beginning of the end.

É com pesar que descrevo, nessas incomuns linhas, a primeira redenção que meus olhos puderam captar. Um alguém primordial que entregaria os fios de sua lucidez a outro — aquele que era sua alma e sua lama. Poderia eu ser inundada por regozijo pela candidez que encontrara naquele amor, mas havia as incertezas e impossibilidades camufladas em seus excessivos desejos.

Ao repassar essas desgraçadas lembranças, lembro-me do encanto, tingido pela cor de minha memória deveras sensível, que havia nos orbes de Cecília. Uma sede que a fazia contorcer-se ao vislumbrar o rosto de Gregório, assim como as estrelas, emitir um tênue brilho próprio.

Em seu êxtase, tocava-o e lhe provava a carne. E os movimentos tinham sincronia, como já ensaiados a como reagir ao contato das peles, às respirações aceleradas e quentes contra a face.

E, sobretudo, havia o perfume; a fragrância almiscarada que escapava dele e impregnava as roupas e os cabelos da moçoila — para que ela, à noite, se sentisse compelida a inspirá-lo até sentir-se lânguida o suficiente para adormecer.
Mas frustra-me ser incapaz de apresentar esses fatos com acentuada precisão. Não que me falte um vocabulário pra descrevê-los, mas é por aquela paixão (que ninguém chegaria a entender por completo) me cegava.

Cecília era submissa. A ele, tudo entregaria com generosidade — as palmas, o grito, o ar. À frente, eu a veria dedicar-se com afinco à crença de que as coisas se tornariam mais fáceis de serem encaradas, que o mundo resguardaria — e compreenderia — a complexidade daqueles corações. Quão longe estava ela de imaginar que era só ilusão.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

It could be right (but it isn’t).

Ela tinha o enorme e irreparável defeito de querer consertar. E não apenas objetos, mas pessoas. Acolhera essa tarefa como uma missão, como uma necessidade de encontrar a perfeição — de fabricá-la e contê-la. E se não o tivesse conhecido, jamais teria falhado.

Ele não a amava, mas era obcecado pela candura de seus atos. Pela facilidade que ela tinha de acolher suas promessas frívolas e guardá-las. Execrava a languidez que a invadira ao intuir que não era capaz de reparar aquela alma fragmentada. E ele, tão ciente que ela esperaria por algo que não viria, a deixava tentar. Sempre e mais, a frustração a invadia.

Ela podia esquecê-lo, mas se apegara à fragilidade daqueles pedaços que não conseguira juntar. Pouco a pouco, a loucura a dopara. Como um golpe, um tropeço. Não o bastante para matá-la, apenas para invadi-la com dor (dor, dor, dor). E ele transformara-na em mais uma peça defeituosa — como ele o era.

O cenário de cortinas rasgadas fora mudado: ele não seria mais solitário em sua insanidade; ela, eterna vítima de si mesma.