quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

The beginning of the end.

É com pesar que descrevo, nessas incomuns linhas, a primeira redenção que meus olhos puderam captar. Um alguém primordial que entregaria os fios de sua lucidez a outro — aquele que era sua alma e sua lama. Poderia eu ser inundada por regozijo pela candidez que encontrara naquele amor, mas havia as incertezas e impossibilidades camufladas em seus excessivos desejos.

Ao repassar essas desgraçadas lembranças, lembro-me do encanto, tingido pela cor de minha memória deveras sensível, que havia nos orbes de Cecília. Uma sede que a fazia contorcer-se ao vislumbrar o rosto de Gregório, assim como as estrelas, emitir um tênue brilho próprio.

Em seu êxtase, tocava-o e lhe provava a carne. E os movimentos tinham sincronia, como já ensaiados a como reagir ao contato das peles, às respirações aceleradas e quentes contra a face.

E, sobretudo, havia o perfume; a fragrância almiscarada que escapava dele e impregnava as roupas e os cabelos da moçoila — para que ela, à noite, se sentisse compelida a inspirá-lo até sentir-se lânguida o suficiente para adormecer.
Mas frustra-me ser incapaz de apresentar esses fatos com acentuada precisão. Não que me falte um vocabulário pra descrevê-los, mas é por aquela paixão (que ninguém chegaria a entender por completo) me cegava.

Cecília era submissa. A ele, tudo entregaria com generosidade — as palmas, o grito, o ar. À frente, eu a veria dedicar-se com afinco à crença de que as coisas se tornariam mais fáceis de serem encaradas, que o mundo resguardaria — e compreenderia — a complexidade daqueles corações. Quão longe estava ela de imaginar que era só ilusão.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

It could be right (but it isn’t).

Ela tinha o enorme e irreparável defeito de querer consertar. E não apenas objetos, mas pessoas. Acolhera essa tarefa como uma missão, como uma necessidade de encontrar a perfeição — de fabricá-la e contê-la. E se não o tivesse conhecido, jamais teria falhado.

Ele não a amava, mas era obcecado pela candura de seus atos. Pela facilidade que ela tinha de acolher suas promessas frívolas e guardá-las. Execrava a languidez que a invadira ao intuir que não era capaz de reparar aquela alma fragmentada. E ele, tão ciente que ela esperaria por algo que não viria, a deixava tentar. Sempre e mais, a frustração a invadia.

Ela podia esquecê-lo, mas se apegara à fragilidade daqueles pedaços que não conseguira juntar. Pouco a pouco, a loucura a dopara. Como um golpe, um tropeço. Não o bastante para matá-la, apenas para invadi-la com dor (dor, dor, dor). E ele transformara-na em mais uma peça defeituosa — como ele o era.

O cenário de cortinas rasgadas fora mudado: ele não seria mais solitário em sua insanidade; ela, eterna vítima de si mesma.