segunda-feira, 15 de março de 2010

Você vê essas cicatrizes, querido? Foram feitas por você.

A cada tique do relógio, eu tenho vislumbres vivos de personagens estampados no escuro interno de minha pálpebra. Eu arranco suas angústias e retrato-as com palavras — que me soam extraordinariamente imprecisas — para que, já tão livres do peso que havia em seus ombros, eles partam.
Mas há uma que sempre insiste em me perseguir. Ela me mostra um coração partido em pedaços tão mínimos que jamais conseguiriam repará-lo.
Abaixo, a confissão de quem amou com ardor.
Eu lembro. Lembro-me de você ter feito aquelas promessas tão rasas que acabou por desfazê-las. De ter impregnado meus lençóis com sua fragrância. De ter marcado minha pele com as notas de suas canções para que, no futuro, eu as olhasse e recordasse da sua melodia. Lembro-me, por mais amargo que seja, de vê-lo atando meu pulso com correntes invisíveis (que me diriam que eu seria sempre sua).
E apesar do tempo, ainda tenho o gosto de sua saliva na minha. Ainda sinto seus dentes cravados em minha boca, roubando os resquícios da sanidade que eu possuía. Ainda tenho seu reflexo no espelho, e fios do seu cabelo no travesseiro. Ainda tenho o porta-retratos quebrado no assoalho e as pílulas nos frascos, esperando que você retorne. Não apenas para meus braços — já tão débeis pela sua ausência —, mas para reparar esse pedaço oco e fodido que eu me tornei. Essa ferida que não cura. Porque mesmo com os anos terem se arrastado e a primavera nunca mais ter vindo ao meu encontro, eu lembro.