domingo, 28 de novembro de 2010

Sobre opostos e iguais, parte I.

Tinha perdido a conta de quantos dias passara ali. Duas ou três semanas? Mais de um mês, provavelmente. O estranho era que não se preocupava se alguém estava à sua procura, mas se questionava se sentiam sua falta, quem quer que fosse. Pela primeira vez na vida, tentava ser otimista. Um pouco tarde demais, eu diria.

O pequeno cômodo em que estava era mal-iluminado e de paredes pichadas, com rachaduras por toda sua extensão. (De alguma forma, estava convicta que outras estiveram em seu lugar.) Os trapos que vestia cheiravam a mofo, suor e vômito. E havia o sangue, claro; na ponta dos dedos, no lábio inferior ferido, nos joelhos e palmas das mãos raladas.

Amélia era a filha do meio de um casal de professores universitários. Nem a mais bela, nem a mais inteligente: a mais solitária, sim, mas quando tal característica foi o bastante? Cresceu sem vivenciar emoções, teve três namorados, desistiu do casamento com o último. Era fumante e alcoólatra, embora soubesse esconder seus vícios com talento. Lecionou por algum tempo, até perceber que não, não era seu sonho. Publicou Os Rasgos da Loucura, seu primeiro livro. Vendeu alguns exemplares, nada de excepcional. E como se toda a frustração de sua vida fosse pouco a ser suportado, Amélia fora conduzida por um rapaz de roupas caras e belos olhos verdes — como esmeraldas incrustadas na tez alva — até aquele pequeno cárcere, sendo ferida e pouco alimentada. O motivo? Ela não saberia dizer.

O desconhecido, ela supôs, devia provir de uma família abastada. Se aguçasse a audição, conseguia ouvir trechos de músicas que o rapaz parecia gostar. Bach, Chopin, Debussy. Seus sapatos eram bem engraxados, costumava usar camisas de linho e cheirava à mistura de cigarros mentolados com um perfume caro. Eles não se falaram muitas vezes, no entanto. No primeiro dia, ela gritara até a garganta doer e ficar seca. Implorando por socorro, socou as portas. “Por quê? Por que, meu Deus, por quê?” A resposta não veio, e ela, por fim, se conformou com os maus tratos.

Quando ouviu o barulho de passos do lado de fora, arrastou-se pelo chão, recuando. A maçaneta girou e a ruiva gemeu, trêmula dos pés a cabeça. Ele (não sabia seu nome) entrou pela fresta da porta aberta, e deu à vítima um sorriso de escárnio. Aproximava-se como um predador se espreita até a presa, num silêncio tão absoluto que feria os tímpanos. — Veja — Ele estendeu a bandeja prateada na direção dela, agachando-se para que seus rostos ficassem a mesma altura. —, para uma noite especial, minha bela.

Havia um copo com água limpa, uma taça de vinho e um prato com batatas coradas e carne assada. Seu estômago esfomeado pareceu protestar para que ela atacasse a comida, sem pestanejar, mas Amélia compreendera as entrelinhas daquela última sentença. “Uma noite especial”, repetiu em pensamento.

— Não tenha medo. — Erguendo as íris para encará-lo, foi surpreendida quando o polegar do outro lhe tocou a boca seca. — Daqui a alguns instantes, tudo estará terminado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

I don’t know what I can save you from.

Estava a sete passos da cama. Defronte à penteadeira, observava-o (através de seu reflexo no espelho) envolto pelos lençóis recém-usados. Inconsciente da observação minuciosa da amante, ele fumava e mantinha os orbes presos à janela entreaberta. A expressão muito marcada de frustração, de ausência, de sede por entendimento.
Havia silêncio demais entre aquelas paredes e ele era fraco para suportá-lo.

— Eu queria que você ficasse. — Sua voz era rouca, como quem está dando o melhor de si para conter um soluço. — Queria que você quisesse ficar.
— E eu quero.
— Sei que está cansada. Você sempre se cansa.
— Como?
— Você tem necessidade de ser livre; uma necessidade que é proporcional a que eu tenho de ficar preso a você.

Ela não respondeu. Virou-se e apanhou, uma a uma, as peças de roupa no chão. Elas cheiravam ao whisky que ambos tomaram na noite passada, antes de uma transa sem emoção. É claro que poderia sentar na cama e beijá-lo, sentir o gosto de sua saliva uma vez mais antes de partir, mas era preciso quebrar aquilo em mil pedaços. Sufocar na memória qualquer coisa bonita que tiveram. (Seria mais fácil de te esquecer, meu bem. Entenda.)
— ...Por favor. Não. Não, Julia, não.

Seu soluço somou-se ao barulho da porta sendo fechada.