segunda-feira, 1 de novembro de 2010

I don’t know what I can save you from.

Estava a sete passos da cama. Defronte à penteadeira, observava-o (através de seu reflexo no espelho) envolto pelos lençóis recém-usados. Inconsciente da observação minuciosa da amante, ele fumava e mantinha os orbes presos à janela entreaberta. A expressão muito marcada de frustração, de ausência, de sede por entendimento.
Havia silêncio demais entre aquelas paredes e ele era fraco para suportá-lo.

— Eu queria que você ficasse. — Sua voz era rouca, como quem está dando o melhor de si para conter um soluço. — Queria que você quisesse ficar.
— E eu quero.
— Sei que está cansada. Você sempre se cansa.
— Como?
— Você tem necessidade de ser livre; uma necessidade que é proporcional a que eu tenho de ficar preso a você.

Ela não respondeu. Virou-se e apanhou, uma a uma, as peças de roupa no chão. Elas cheiravam ao whisky que ambos tomaram na noite passada, antes de uma transa sem emoção. É claro que poderia sentar na cama e beijá-lo, sentir o gosto de sua saliva uma vez mais antes de partir, mas era preciso quebrar aquilo em mil pedaços. Sufocar na memória qualquer coisa bonita que tiveram. (Seria mais fácil de te esquecer, meu bem. Entenda.)
— ...Por favor. Não. Não, Julia, não.

Seu soluço somou-se ao barulho da porta sendo fechada.

4 comentários:

Aymée Fávaro. disse...

''— Você tem necessidade de ser livre; uma necessidade que é proporcional a que eu tenho de ficar preso a você.''


essa é a minha parte preferida *-*
pago pau pros teus textos, falei.

Vinícius disse...

tenso. violento. irônico. violento. forte. violento. dramático. violento. amável. violento.

Almi Júnior disse...

Gostei demais dos textos.
Um-por-um.

Francisco Jamess disse...

simplesmente adoro esses contos hermeticamente fechados em si que não precisam de muito mais que 10 linhas pra deixar uma marca na gente. =]

http://baiucadobardo.blogspot.com/